Conflitos diários (1a. semana)

Publicado 6/fevereiro/2020 por admin em blog

Por Mirian Christen

Nosso tema neste retiro nos leva a refletir como é nosso dia a dia. E como é nosso relacionamento com Deus. A maioria de nós vive com Jesus há muito tempo. Será que, se olharmos para trás podemos ver transformação em nosso ser? Será que hoje estamos mais parecidas com Jesus? Será que conseguimos ver crescimento na relação pessoal com Deus e com as pessoas?

O tema desta palestra é: Conflitos diários. 

O que são conflitos? A palavra conflito está ligada à discórdia, divergência, dissonância, controvérsia. As pessoas quase nunca têm objetivos e interesses idênticos. As diferenças de objetivos e interesses produzem o conflito. Muitas vezes, o conflito surge através de um olhar, um gesto ou mesmo uma falta de atitude. Não há história sem conflito. Não há romance, conto ou poesia sem conflito. Não há vida sem conflitos internos ou externos!

O conflito é inevitável e pode tornar-se violência. A violência nasce do vazio. O conflito, da convivência. A sabedoria está em fazer dos conflitos ocasiões de crescimento!

Por muito tempo fiz tudo para evitar conflitos. Mas não há como viver livre deles. Todas nós os vivemos durante nosso desenvolvimento pessoal. Crises, situações tensas e difíceis, situações que cada uma de nós têm que enfrentar sozinhas, ou mesmo resolver em conjunto.

O livro: “A liturgia do ordinário”, que é base do tema de nosso retiro, nos traz a certeza de que cada dia nosso importa grandemente para Deus. É a maneira que Deus usa para nos encontrar, nos transformar, nos ensinar a amá-lo e a amar os outros também. Ontem já ouvimos como Deus nos encontra e como nós O encontramos no dia a dia. E, através dos conflitos diários nós exercemos paciência, tolerância, dividimos o fardo, aprendemos responsabilidade, confessamos pecados, pedimos perdão, negamo-nos a nós mesmas.

O livro apresenta o exemplo de uma mulher que, em meio às atividades de seu dia a dia, planejou sair de manhã para ir ao mercado e à uma reunião. Então, depois de tudo feito, de se arrumar para sair, não achou a chave do carro. E procura e não acha, e fica nervosa, e um pouco em pânico. A calma se vai e ela tenta achar procurando em todos os lugares possíveis. Ela se autocondena – Como eu posso ser tão relaxada e não saber onde coloquei a chave? E fica se culpando. E condena os outros – Certamente as meninas brincaram com a chave e a deixaram jogada em algum lugar! Ou foi o marido? Será que a levou junto para o trabalho? Será que Deus pode me ajudar? Sim, por que Ele não ajuda logo? Aí ela fica em agonia. Procura a chave até em lugares que nunca estaria. Procura outra vez. Ela constata que já se passaram nove minutos. Agora ela pensa: Última tentativa. Para e ora. Respira fundo. Ela se acha ridícula, exagerando. Pede ajuda divina. Nada. Se desespera. Se joga no sofá. – Nunca vou achar a chave, conclui. – Estou presa. Não vou conseguir seguir meus planos. Sou uma perdedora. Nada vale a pena. E então, de repente, envergonhada e culpada pelo exagero, se recompõe e começa a procurar outra vez, passo a passo. Sete minutos depois encontra a chave debaixo do sofá. – Achei! Grita como se alguém estivesse ouvindo. E, rapidamente, ela vai até a garagem para sair com o carro. Agora, desiste de ir ao mercado e vai direto à reunião. E diz: “A minha chave perdida acaba sendo um ruído no meu dia, nada importante, tão pequenos e esquecíveis minutos. Mas, também foi um tempo de desvendar e descobrir”.

Será que nos reconhecemos em meio a essa história? Então podemos aprender algumas coisas importantes com ela.

  • Ela reconhece que agarra com força o controle, e quão pouco controle ela realmente tem. E na ausência de controle o conflito acontece: se sente presa e estressada. E as coisas que quer esconder aparecem. Na verdade, no decorrer da vida, usamos máscaras porque não queremos mostrar certas coisas que habitam nosso interior. E conflitos que nos sobrevêm fazem aparecer coisas das quais Deus quer nos limpar e libertar. Nos purificar. Em João 8.31-32, Jesus nos diz: (ler). 
  • Autoengano. É a tendência que o nosso cérebro tem de mentir para nós mesmos. É uma maneira de criar ilusões – mecanismo de defesa – enganando-se a si mesmo. Quando cometemos algum erro, colocamos a culpa sobre o outro. Autoengano não nos permite reconhecer os nossos erros, tampouco de buscar ajuda. Assim, evitamos encarar a realidade. A mulher começou a pensar que talvez as meninas tivessem perdido a chave. Ou que o marido a tivesse levado. Culpamos os outros quando as coisas não dão certo, quando as coisas desaparecem, quando nos sentimos incapazes de resolver algo. Adão e Eva fizeram exatamente isso. Desobedeceram a Deus e depois culparam a serpente, a mulher, e a Deus mesmo. Vejo como nas minhas atividades diárias eu me irrito facilmente e sou até estúpida porque não assumo a responsabilidade de estar errada, passando a culpar os outros. Daí vamos nos auto enganando. Reconheço que preciso amadurecer e crescer na obediência ao Senhor. Aprender a ter domínio próprio e agir sem me irritar por coisinhas que ocorrem no dia a dia. Nos conflitos podemos aprender coisas preciosas a nosso respeito, mesmo que, às vezes, sejam ruins. Aprender que nem sempre vai dar tudo certo, que preciso enfrentar com maturidade algo que sai do meu controle. Precisamos aceitar nossos erros para deixá-los aos pés da cruz. Através da confissão e pedido de perdão somos libertos do erro. Somos perdoadas por Jesus. Deus quer nos transformar à imagem de Cristo (Romanos 8.28-30).
  • Dessa experiência da perda da chave do carro, também podemos aprender que quando as coisas não dão certo como planejamos, podemos ainda assim ficar contentes. Paulo nos fala para estarmos contentes em qualquer situação – Filipenses 4.11. Para ele isso significava encontrar contentamento em meio a naufrágios, espancamentos e perseguições. Mas não precisamos esperar por coisas tão difíceis para provar estar contente em qualquer circunstância. O chamado de Deus ao contentamento é um chamado em meio às minhas e às tuas circunstâncias concretas de hoje. Deste dia. Deste momento. Precisamos encontrar alegria e rejeitar o desespero em meio às pressões e ansiedades do dia. Reformamos os móveis de cozinha em dezembro passado. Foi tudo muito rápido. Mas daí a saída de água da pia não conectava, provocando vazamentos. Não podia lavar a louça, nem abrir a torneira. E, mesmo tendo ali pertinho a cozinha de minha mãe, fiquei cansada e incomodada pelo vazamento. Após isso resolvido, a água da torneira só saía bem fraquinha. Podia ser ar no cano que vem da caixa de água. Muitas tentativas para solucionar o problema foram feitas. Todas frustradas. De novo não podia usar minha pia. Tinha que carregar as louças para lá e para cá. E a alegria da cozinha nova queria ir embora. Esse chamado ao contentamento é um chamado em meio às circunstâncias concretas desse tipo, àquelas em que me encontro hoje. “Alegrai-vos no Senhor, outra vez digo: alegrai-vos” – Filipenses 4.4. Precisamos cultivar a prática de encontrar a Cristo nestes pequenos momentos de angústia, frustração e raiva. Do contrário, vamos passar a vida imaginando, esperando, pregando e ensinando como partilhar dos sofrimentos de Cristo na perseguição ou em sofrimento extremo como a morte. Enquanto isso, nossos dias reais podem ser de murmuração, descontentamento e ansiedade. Ah, para que a água voltasse a escorrer bem da torneira, bastou limpar o filtro na ponta dela!

Deixar de usar máscaras, deixar o autoengano e contentar-se em qualquer situação parecem ser as principais lições da chave perdida. O arrependimento e a fé são ritmos constantes e diários da vida cristã, como o é o ato de respirar. Nesses pequenos momentos que revelam a nossa fraqueza e pecado, precisamos desenvolver o hábito de admitir a verdade de quem realmente somos, sem querer nos justificar ou minimizar o nosso pecado. Ao mesmo tempo, também precisamos desenvolver o hábito de aceitar o amor de Deus, confiando a Ele sempre de novo as nossas vidas, recebendo suas palavras de perdão e purificação. 

Deus busca mais ardentemente a mim do que a mulher por sua chave. Ele zela por encontrar o seu povo e restaurá-lo. 

E quando a questão acontece nos relacionamentos?

Temos a tendência de ver as dificuldades de nos entendermos, de entendermos o nosso próximo como coisas ruins, coisas que nos atrapalham ou nos trazem sentimentos de culpa. Precisamos aprender que nada é em vão, nada sem sentido, nada é perdido. Nada do que vivemos ou fazemos, nossas escolhas e sonhos, fogem do Senhorio de Deus em nossa vida. Deus está nos formando em novo povo, em novas pessoas. E o lugar dessa formação está nos pequenos momentos de hoje. (Tish Harrison Warren). 

Acontece um desentendimento entre a mulher da chave e seu marido, ou comigo e meu marido, ou de você com o seu marido, ou da filha com sua mãe. Muitos são os nossos relacionamentos. Muitos também podem ser os desentendimentos, os conflitos. Não precisa ser um conflito enorme. Nem uma crise matrimonial. Nem motivo para divórcio. São conflitos mais parecidos com uma pedrinha no sapato. Causados por um ressentimento habitual que pode se acumular. E depois de discussões, de fala mais alta que o normal, de indiretas, acontece um silêncio. Um afastamento. Cada uma das partes vai esperar que a outra baixe as armas primeiro. Isso requer muita coragem, mais coragem do que qualquer um tem neste momento. 

É incrível como conseguimos nos entender muito bem com pessoas com quem não convivemos diariamente. Quando entramos em conflito com alguém, normalmente é com os que mais amamos e que mais próximos de nós estão. 

A luta para “amar o teu próximo” é testada mais frequentemente na nossa casa, com nosso marido, com nossos filhos, com nossos pais idosos…

A autora do livro diz: “Negligencio frequentemente o óbvio, proclamando um amor radical para o mundo, enquanto negligencio o cuidado daqueles mais próximos a mim. Mas estou cada vez mais ciente de que não posso buscar a paz de Deus e a Sua missão no mundo sem começar bem onde eu estou, na minha casa, na minha vizinhança, na minha igreja, com as pessoas reais que estão bem do meu lado”.

Precisamos aprender a ouvir o outro. A acatar suas ideias e só então falar e argumentar se for necessário. E com amor. Leiamos Tiago 1.19-20. Também é necessário lutar pela paz. II Coríntios 13.11. A paz de Cristo se evidencia quando estou cozinhando para os meus queridos, ou quando suporto uma palavra azeda sem revidar. O amor ordinário, do dia a dia é a substância da paz na terra, a moeda de troca da graça de Deus na nossa vida. No culto cristão somos lembrados de que a paz é um produto doméstico e artesanal, começando em nossos lares, na vida diária, nas redondezas. Cada vez que fazemos uma pequena escolha pela justiça, compramos do comércio justo, buscamos compartilhar ao invés de acumular, estendemos misericórdia aos que estão ao nosso redor e generosidade aos que discordam de nós ou dizemos “eu te perdoo”. Assim passamos a paz onde estamos do jeito que podemos. Deus pode tomar essas coisas ordinárias, abençoá-las e multiplicá-las. Ele pode fazer histórias revolucionárias através de pequenas coisas, de pequenos atos de paz. E precisamos uns dos outros para buscarmos a Deus e a paz para a nossa cidade. Passar a paz de todas as formas que pudermos, no lugar e na esfera em que Deus nos chamou é uma prática cristã em que cada uma de nós deve viver diariamente (I Pedro 3.11). Na bíblia encontramos mais de 200 vezes a palavra paz. 

Precisamos aprender a seguir a Jesus de segunda a sexta-feira, com todas as implicações que existem e que acontecem. Para deixar esclarecido, a autora e seu marido, depois de 20 minutos, cederam. Ela pediu perdão e ele também. Perdoaram-se um ao outro. Porque vivemos num mundo caído, buscar a paz envolverá sempre perdão e reconciliação. Nosso perdão e reconciliação não são capacidades nossas, mas fluirão do perdão de Cristo dado para nós. É a paz de Cristo, nosso pacificador. Deus nos reconciliou consigo mesmo. Somos pessoas briguentas, mas Deus está nos reformando para sermos pessoas que, nos momentos ordinários, estabeleçamos o Seu reino de paz. Vamos ler Efésios 4.25ss.

Fazer a oração com confissão e proclamação de perdão. 

“Deus misericordioso, confessamos que pecamos contra Ti em pensamento palavra e ação, pelo que fizemos e pelo que deixamos de fazer. Não amamos a Ti com todo o nosso coração; não amamos o nosso próximo como a nós mesmos. Estamos verdadeiramente tristes por isso e nos arrependemos humildemente. Por amor a Seu Filho, Jesus Cristo, tem misericórdia de nós e nos perdoa, para que possamos nos alegrar na Sua vontade e andar nos Seus caminhos, para a glória do Teu nome”.

Proclamar a paz. Filipenses 4.17.

Sem comentários ainda em “Conflitos diários (1a. semana)”

Comentários não são permitidos nesta postagem